Diz o povo que, depois de uma tempestade, vem a bonança. O
que me passa pela cabeça quando se diz isto? Aguas calmas, transparentes,
tranquilas, cenários idílicos. E o mar a bater suavemente na proa do barco. Na
verdade o que seria? Um barco cheio de rombos e peças partidas, fora do sítio.
Uma tripulação decepada em alguns dos seus elementos, outros fortemente
feridos, a morrer jazendo no chão. Um mar sujo com pedaços de embarcações,
corpos a boiar, restos do fundo revolvidos, dando à agua um aspeto baço e sujo.
E é isto a bonança? Não parece tão bom assim…
A verdade é que as tempestades no mar, e como tal as
tempestades que acontecem na vida de cada pessoa, não são fenómenos isolados no
tempo. Das tempestades resultam prejuízos que, nos tempos de acalmia, é preciso
apurar e, dentro do possível, minorar. E ninguém gosta de contar corpos, fazer
contas aos estragos e, depois do stress, do susto e da violência da tempestade,
arregaçar as mangas e trabalhar na reconstrução. Nem nos barcos, nem em terra
e, muito menos, nas relações fustigadas por essas tempestades.
E, de vez em quando, fala-se em tempestades num copo de
água. Problemas que, aparentemente e para uma das partes, não têm razão de ser.
Essas são as piores porque, depois de uma tempestade que pode ser bem real,
apenas fica um copo de água, agitado mas minúsculo. O que fazer com tal coisa?
Onde há base de trabalho para reconstruir? Um copo de água dá para molhar uma
sala inteira, aspergindo essa água. Mas tentem pegar na agua aspergida e voltar
a reuni-la. Impossível!
Demais será dizer que bonança num copo de água é coisa que
não existe. Porque se, no princípio, havia um copo parcialmente cheio, no final
haverá um copo vazio. E o que se pode fazer de e com um copo vazio? Nada! É
preciso descobrir mais água, algures, para voltar a encher esse copo. Voltar a
enchê-lo é necessário mas, há sempre um mas, encher o copo significa que ele
poderá voltar a ocasionar tempestade. Toda a gente sabe do perigo que é alguém
ficar de copo cheio.
Eu sei que tudo isto são metáforas sobre metáforas sobre
metáforas. É confuso. É propositado porque não poderia escrever simplesmente
sobre um tema que nada tem de simples. Mas agora serei sintético. Haverá sempre
tempestades. Haverá sempre necessidade de reconstruir depois da tempestade. Há
que não desistir por acontecerem tempestades. E, acima de tudo, tomemos
consciência que levaremos algumas tempestades mas teremos na outra mão a
capacidade de acabar com muitas delas. Acabar com aquelas que provocamos e,
também, algumas que os outros nos provocam.