A cada data que merece recordação acontece a constatação de
quanto o tempo passa depressa. Uma pessoa pode celebrar 30 anos e há sempre uma
tia que diz “ainda ontem te tinha no meu colo”, ou passam-se 10 anos da morte
de um pai e o momento da ultima despedida é como se tivesse acabado de
acontecer ou até passam-se meses de uma grande festa e inspirando fundo ainda
se sente o cheiro a cerveja seca e a fumo e ainda se sente o leve inebriar o
álcool a circular no sangue. A memória é assim, fiel mas enganadora. Tal como a
Lua.
As pessoas envelhecem e mudam. O sol nasce e põe-se todos os
dias, à nossa vista. As árvores ficam viçosas na primavera e decaem ao longo
das estações seguintes. Tudo isso são sinais da passagem do tempo. E, ainda
assim, ele é sempre tão breve em retrospectiva mas tão longo na passagem e tão
distante no futuro. À segunda-feira a sexta-feira ainda vem longe mas o sabor
daquele prato comido há três anos ainda está cá. Aos 25 anos os 40 ainda vêm
longe mas foi ontem que entrámos no 5º ano (é a mesma distância).
Por isso gosto de cicatrizes. Cicatrizes literais e
metafóricas. Porque as cicatrizes envelhecem como nós. Relembram-nos como
aquilo que parece tão perto no passado afinal talvez esteja mais longe. E assim
também permite olhar o presente e o futuro com outros olhos, com uma perspetiva
mais realista de quanto tempo temos, quanto tempo nos falta e quanto o tempo
nos marcará para passar.
Por falar em olhos, penso que as cicatrizes acabam por ter
um papel como o de uma segunda lente ou um segundo olho para observar a
passagem do tempo. Tal como na visão são precisas duas perspetivas angularmente
próximas para percecionar distancias então o mesmo se passa com a passagem do
tempo. É preciso não apenas a memória da passagem do tempo mas também o testemunho
físico dessa passagem, como uma cicatriz ou uma fotografia, para, mais
fielmente podermos ver como o tempo passou. Como ele nos marcou e nos mudou.
Como ele nos molda, como a sua torrente inegável e inevitavelmente acaba por
nos limar arestas.
Tal como pedras, a vida e o tempo moldam as pessoas e moldam
o mundo. Moldam no choque entre pessoas, como pedras angulosas no leito do rio,
e moldam e alisam com os pequenos atritos da vida, como areias do mar. Sendo
pequenas escavam, pouco a pouco, grutas e enseadas na costa. Assim também a
vida nos faz. E esta observação não é, intrinsecamente, boa ou má. Mas é
inevitável dizer que o mesmo mar e a mesma areia que moldaram as mais belas
paisagens deste planeta também provocaram e provocam o desabamento de arribas.
Felizmente, ao contrário das rochas, nós detemos algum controlo sobre a erosão
que nos é provocada. Por isso deixemos moldar-nos belos e agradáveis mas não
nos permitamos, nem permitamos que outros acabem por desabar por força dessas
pequenas areias que nos atingem diariamente.
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