quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Cicatrizes e sinais do tempo

A cada data que merece recordação acontece a constatação de quanto o tempo passa depressa. Uma pessoa pode celebrar 30 anos e há sempre uma tia que diz “ainda ontem te tinha no meu colo”, ou passam-se 10 anos da morte de um pai e o momento da ultima despedida é como se tivesse acabado de acontecer ou até passam-se meses de uma grande festa e inspirando fundo ainda se sente o cheiro a cerveja seca e a fumo e ainda se sente o leve inebriar o álcool a circular no sangue. A memória é assim, fiel mas enganadora. Tal como a Lua.

As pessoas envelhecem e mudam. O sol nasce e põe-se todos os dias, à nossa vista. As árvores ficam viçosas na primavera e decaem ao longo das estações seguintes. Tudo isso são sinais da passagem do tempo. E, ainda assim, ele é sempre tão breve em retrospectiva mas tão longo na passagem e tão distante no futuro. À segunda-feira a sexta-feira ainda vem longe mas o sabor daquele prato comido há três anos ainda está cá. Aos 25 anos os 40 ainda vêm longe mas foi ontem que entrámos no 5º ano (é a mesma distância).

Por isso gosto de cicatrizes. Cicatrizes literais e metafóricas. Porque as cicatrizes envelhecem como nós. Relembram-nos como aquilo que parece tão perto no passado afinal talvez esteja mais longe. E assim também permite olhar o presente e o futuro com outros olhos, com uma perspetiva mais realista de quanto tempo temos, quanto tempo nos falta e quanto o tempo nos marcará para passar.

Por falar em olhos, penso que as cicatrizes acabam por ter um papel como o de uma segunda lente ou um segundo olho para observar a passagem do tempo. Tal como na visão são precisas duas perspetivas angularmente próximas para percecionar distancias então o mesmo se passa com a passagem do tempo. É preciso não apenas a memória da passagem do tempo mas também o testemunho físico dessa passagem, como uma cicatriz ou uma fotografia, para, mais fielmente podermos ver como o tempo passou. Como ele nos marcou e nos mudou. Como ele nos molda, como a sua torrente inegável e inevitavelmente acaba por nos limar arestas.


Tal como pedras, a vida e o tempo moldam as pessoas e moldam o mundo. Moldam no choque entre pessoas, como pedras angulosas no leito do rio, e moldam e alisam com os pequenos atritos da vida, como areias do mar. Sendo pequenas escavam, pouco a pouco, grutas e enseadas na costa. Assim também a vida nos faz. E esta observação não é, intrinsecamente, boa ou má. Mas é inevitável dizer que o mesmo mar e a mesma areia que moldaram as mais belas paisagens deste planeta também provocaram e provocam o desabamento de arribas. Felizmente, ao contrário das rochas, nós detemos algum controlo sobre a erosão que nos é provocada. Por isso deixemos moldar-nos belos e agradáveis mas não nos permitamos, nem permitamos que outros acabem por desabar por força dessas pequenas areias que nos atingem diariamente.

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