segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Olho-te nos olhos

Dizem que os olhos são porta para a alma. Para mim são mais que isso, são porta para outra dimensão. São porta para o outro mundo. O mundo que existe nos olhos que é dona daqueles olhos. E os mesmos lugares, as mesmas pessoas são outros lugares, outras pessoas. A realidade funde-se com o sentimento, pintando a realidade com outros tons, outras cores. O mundo já não é só o mundo. É o mundo daquela pessoa.

Os olhos são de muitas cores. E cada cor, diz-se, tem o seu significado. Para mim aquela genética imperiosa que dita a coloração do globo ocular não é dissociável da genética que determina, pelo menos em parte, muitas outras características, nomeadamente psicológicas e emocionais da pessoa. Por isso, sem misticismo, acredito que a cor dos olhos significa mesmo algo na personalidade da pessoa. Não sei o significado de cada cor. Só posso falar do fascínio que me provocam os olhos de cada pessoa.

Só por pudor não fico, tantas vezes, perdido a admirar o olhar das pessoas. Sejam azuis, castanhos, verdes ou pretos, tenho a tentação de mergulhar no fundo desse olhar e beber de tudo o que essa fonte tiver para me dar. Saber do mundo, saber da vida, saber da pessoa, saber de nós naquele olhar. No fundo dos olhos mora toda a vida. No fundo dos olhos está o fundamental da nossa existência, física, emocional e psicológica. Entrando pelos olhos mata-se alguém num instante. Os olhos são e serão sempre esse fino fio que separa a nossa vida da nossa morte.

O mundo entra-nos por todos os sentidos. Mas podemos não tocar as realidades dolorosas. Podemos não cheirar as podridões da vida. Podemos não ouvir as palavras como facas que nos dilaceram. Podemos não saborear as amarguras da existência. Mas jamais poderemos ignorar as visões do mal com que nos cruzamos. As realidades entram-nos pelos olhos dentro, diz o povo. Não é acaso que esse monstro velho e sábio que é a História nos ensina esta lição.

Podemos fechar os olhos para que o mundo não nos entre pelos olhos. Mas sabemos que, mais tarde ou mais cedo, teremos de os reabrir e enfrentar o mundo. Assim é com as agruras. Podemos ignorá-las, fingir que não estão lá. Mas um dia teremos de ficar face a face com elas. E esses encontros ficarão certa e imediatamente, marcados nos nossos olhos e no nosso olhar.

E eu olho-te nos olhos. A ti, que és ninguém e és toda a gente. A ti, que sou eu no espelho e é cada transeunte que comigo se cruza todos os dias. E nos teus olhos tenho um relance do teu mundo, e nos teus olhos vejo todas as maravilhas que a vida te oferece diariamente e também todos os desafios que enfrentas com bravura e aqueles que te subjugam. Nos olhos vejo toda a dimensão da existência e todo o nada que é esta vida que hoje existe e amanhã termina.


Esses olhos perecíveis com que somos bafejados em sorte todos os que não nascem cegos. Esses olhos um dia apodrecerão e desaparecerão. E mesmo assim, circunscritos a um espaço curto de tempo de existência, são portal para o infinito. Esse infinito real e esse infinito transcendente de todas as imaginações que até os cegos têm!

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