Dizem que os olhos são porta para a alma. Para mim são mais
que isso, são porta para outra dimensão. São porta para o outro mundo. O mundo
que existe nos olhos que é dona daqueles olhos. E os mesmos lugares, as mesmas
pessoas são outros lugares, outras pessoas. A realidade funde-se com o
sentimento, pintando a realidade com outros tons, outras cores. O mundo já não
é só o mundo. É o mundo daquela pessoa.
Os olhos são de muitas cores. E cada cor, diz-se, tem o seu
significado. Para mim aquela genética imperiosa que dita a coloração do globo
ocular não é dissociável da genética que determina, pelo menos em parte, muitas
outras características, nomeadamente psicológicas e emocionais da pessoa. Por
isso, sem misticismo, acredito que a cor dos olhos significa mesmo algo na
personalidade da pessoa. Não sei o significado de cada cor. Só posso falar do
fascínio que me provocam os olhos de cada pessoa.
Só por pudor não fico, tantas vezes, perdido a admirar o
olhar das pessoas. Sejam azuis, castanhos, verdes ou pretos, tenho a tentação de
mergulhar no fundo desse olhar e beber de tudo o que essa fonte tiver para me
dar. Saber do mundo, saber da vida, saber da pessoa, saber de nós naquele
olhar. No fundo dos olhos mora toda a vida. No fundo dos olhos está o
fundamental da nossa existência, física, emocional e psicológica. Entrando
pelos olhos mata-se alguém num instante. Os olhos são e serão sempre esse fino
fio que separa a nossa vida da nossa morte.
O mundo entra-nos por todos os sentidos. Mas podemos não
tocar as realidades dolorosas. Podemos não cheirar as podridões da vida.
Podemos não ouvir as palavras como facas que nos dilaceram. Podemos não
saborear as amarguras da existência. Mas jamais poderemos ignorar as visões do
mal com que nos cruzamos. As realidades entram-nos pelos olhos dentro, diz o
povo. Não é acaso que esse monstro velho e sábio que é a História nos ensina
esta lição.
Podemos fechar os olhos para que o mundo não nos entre pelos
olhos. Mas sabemos que, mais tarde ou mais cedo, teremos de os reabrir e
enfrentar o mundo. Assim é com as agruras. Podemos ignorá-las, fingir que não
estão lá. Mas um dia teremos de ficar face a face com elas. E esses encontros
ficarão certa e imediatamente, marcados nos nossos olhos e no nosso olhar.
E eu olho-te nos olhos. A ti, que és ninguém e és toda a
gente. A ti, que sou eu no espelho e é cada transeunte que comigo se cruza
todos os dias. E nos teus olhos tenho um relance do teu mundo, e nos teus olhos
vejo todas as maravilhas que a vida te oferece diariamente e também todos os
desafios que enfrentas com bravura e aqueles que te subjugam. Nos olhos vejo
toda a dimensão da existência e todo o nada que é esta vida que hoje existe e
amanhã termina.
Esses olhos perecíveis com que somos bafejados em sorte
todos os que não nascem cegos. Esses olhos um dia apodrecerão e desaparecerão.
E mesmo assim, circunscritos a um espaço curto de tempo de existência, são
portal para o infinito. Esse infinito real e esse infinito transcendente de
todas as imaginações que até os cegos têm!
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