quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Era uma vez…

Saindo do óbvio e repensando aquilo que se diz ao começar uma história percebo que ou eu ou o português somos muito estúpidos neste particular. Então se era uma vez significa que outra vez já não era. Mas há sequer outra vez? Sem dúvida que é suposto que esta expressão nos transporte para uma realidade alternativa. E fá-lo, mas parece-me que o faz de uma maneira tonta. Ainda para mais remete para um passado. E todos nós gostamos de deixar o passado sossegado, principalmente as crianças. Nessa medida nem sei como este tipo de abordagem tem sequer sucesso para as crianças. Pensando bem até percebo, a verdade é que as crianças não se preocupam com este tipo de pormenores. As crianças isolam tudo o que é acessório para se focar no essencial. Essa é uma capacidade que se vai perdendo com o tempo.

Esta expressão, há que reconhecer, é muito eficiente em isolar o episódio que se vai contar de tudo o resto. Ou seja, esta expressão permite destacar a mensagem contida de toda uma circunstância circundante à ação da história. E haverá sempre perguntas por fazer e por responder à volta dos contos infantis. Por exemplo, a avó do Capuchinho sofria claramente de falta de cuidados geriátricos. Parece-me óbvio que uma casa no meio da floresta não fornece as condições de pronto-socorro que, para todos os efeitos, a terceira idade cada vez mais exige. Outro exemplo, alguém teve o cuidado de analisar quimicamente o sangue da Alice? A história por ela protagonizada tem contornos de alucinação severa, potencialmente com origem em fármacos ou estupefacientes de origem não identificada. Em geral diria que as figuras parentais, nas histórias infantis, têm uma atuação a todos os níveis questionável. Mandem os filhos e as filhas sozinhos para as florestas, não tomam precauções para evitar acidentes com engenhos de coser, abandona-los horas a fio nos quartos em densos episódios de alucinação com brinquedos, em geral um caos familiar.

Não posso, obviamente, ignorar os contos em que os animais são dotados com características muito humanas. Essas histórias, não aprofundando a interrogação sobre a real capacidade de comunicação entre espécies, têm como objetivo fundamental a formação ética e moral da juventude. Como o fazem? Criando potenciais ilusões nas pequenas mentes ávidas de todas as informações. Ou seja, começa-se a formar homens e mulheres com base em mentiras, muitas vezes permitindo que os petizes se deixem levar em ilusões. E a desculpa, mais uma vez, é que “era uma vez”. Como se as crianças soubessem, ou pudessem saber o que “era uma vez” realmente significa! Talvez esteja a ser demasiado duro, talvez as metáforas, as alegorias e as parábolas sejam o único meio eficiente de transmitir mensagens tão relevantes para destinatários tão pobremente dotados de conhecimentos.

Acima de tudo, penso eu, é preciso que o “era uma vez” não fique só por essa vez. É preciso que quem o usa saiba transpor o que se quer tirar dessa vez e aplicar nesta vez. Esta vez que é a de cada pessoa para viver. Eu peguei alguns dos “era uma vez” e faço o melhor uso possível na minha vez de viver. Por exemplo, sou muito mais tartaruga que lebre. E acreditem, já ultrapassei muitas lebres pretensiosas com as quais me fui cruzando!

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