Saindo do óbvio e repensando aquilo que se diz ao começar
uma história percebo que ou eu ou o português somos muito estúpidos neste
particular. Então se era uma vez significa que outra vez já não era. Mas há
sequer outra vez? Sem dúvida que é suposto que esta expressão nos transporte
para uma realidade alternativa. E fá-lo, mas parece-me que o faz de uma maneira
tonta. Ainda para mais remete para um passado. E todos nós gostamos de deixar o
passado sossegado, principalmente as crianças. Nessa medida nem sei como este
tipo de abordagem tem sequer sucesso para as crianças. Pensando bem até
percebo, a verdade é que as crianças não se preocupam com este tipo de
pormenores. As crianças isolam tudo o que é acessório para se focar no
essencial. Essa é uma capacidade que se vai perdendo com o tempo.
Esta expressão, há que reconhecer, é muito eficiente em
isolar o episódio que se vai contar de tudo o resto. Ou seja, esta expressão
permite destacar a mensagem contida de toda uma circunstância circundante à
ação da história. E haverá sempre perguntas por fazer e por responder à volta
dos contos infantis. Por exemplo, a avó do Capuchinho sofria claramente de
falta de cuidados geriátricos. Parece-me óbvio que uma casa no meio da floresta
não fornece as condições de pronto-socorro que, para todos os efeitos, a
terceira idade cada vez mais exige. Outro exemplo, alguém teve o cuidado de
analisar quimicamente o sangue da Alice? A história por ela protagonizada tem
contornos de alucinação severa, potencialmente com origem em fármacos ou
estupefacientes de origem não identificada. Em geral diria que as figuras
parentais, nas histórias infantis, têm uma atuação a todos os níveis
questionável. Mandem os filhos e as filhas sozinhos para as florestas, não
tomam precauções para evitar acidentes com engenhos de coser, abandona-los
horas a fio nos quartos em densos episódios de alucinação com brinquedos, em
geral um caos familiar.
Não posso, obviamente, ignorar os contos em que os animais
são dotados com características muito humanas. Essas histórias, não
aprofundando a interrogação sobre a real capacidade de comunicação entre
espécies, têm como objetivo fundamental a formação ética e moral da juventude.
Como o fazem? Criando potenciais ilusões nas pequenas mentes ávidas de todas as
informações. Ou seja, começa-se a formar homens e mulheres com base em
mentiras, muitas vezes permitindo que os petizes se deixem levar em ilusões. E
a desculpa, mais uma vez, é que “era uma vez”. Como se as crianças soubessem,
ou pudessem saber o que “era uma vez” realmente significa! Talvez esteja a ser
demasiado duro, talvez as metáforas, as alegorias e as parábolas sejam o único
meio eficiente de transmitir mensagens tão relevantes para destinatários tão
pobremente dotados de conhecimentos.
Acima de tudo, penso eu, é preciso que o “era uma vez” não
fique só por essa vez. É preciso que quem o usa saiba transpor o que se quer
tirar dessa vez e aplicar nesta vez. Esta vez que é a de cada pessoa para
viver. Eu peguei alguns dos “era uma vez” e faço o melhor uso possível na minha
vez de viver. Por exemplo, sou muito mais tartaruga que lebre. E acreditem, já
ultrapassei muitas lebres pretensiosas com as quais me fui cruzando!
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