segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Depois da tempestade vem a bonança (?)

Diz o povo que, depois de uma tempestade, vem a bonança. O que me passa pela cabeça quando se diz isto? Aguas calmas, transparentes, tranquilas, cenários idílicos. E o mar a bater suavemente na proa do barco. Na verdade o que seria? Um barco cheio de rombos e peças partidas, fora do sítio. Uma tripulação decepada em alguns dos seus elementos, outros fortemente feridos, a morrer jazendo no chão. Um mar sujo com pedaços de embarcações, corpos a boiar, restos do fundo revolvidos, dando à agua um aspeto baço e sujo. E é isto a bonança? Não parece tão bom assim…
A verdade é que as tempestades no mar, e como tal as tempestades que acontecem na vida de cada pessoa, não são fenómenos isolados no tempo. Das tempestades resultam prejuízos que, nos tempos de acalmia, é preciso apurar e, dentro do possível, minorar. E ninguém gosta de contar corpos, fazer contas aos estragos e, depois do stress, do susto e da violência da tempestade, arregaçar as mangas e trabalhar na reconstrução. Nem nos barcos, nem em terra e, muito menos, nas relações fustigadas por essas tempestades.
E, de vez em quando, fala-se em tempestades num copo de água. Problemas que, aparentemente e para uma das partes, não têm razão de ser. Essas são as piores porque, depois de uma tempestade que pode ser bem real, apenas fica um copo de água, agitado mas minúsculo. O que fazer com tal coisa? Onde há base de trabalho para reconstruir? Um copo de água dá para molhar uma sala inteira, aspergindo essa água. Mas tentem pegar na agua aspergida e voltar a reuni-la. Impossível!
Demais será dizer que bonança num copo de água é coisa que não existe. Porque se, no princípio, havia um copo parcialmente cheio, no final haverá um copo vazio. E o que se pode fazer de e com um copo vazio? Nada! É preciso descobrir mais água, algures, para voltar a encher esse copo. Voltar a enchê-lo é necessário mas, há sempre um mas, encher o copo significa que ele poderá voltar a ocasionar tempestade. Toda a gente sabe do perigo que é alguém ficar de copo cheio.

Eu sei que tudo isto são metáforas sobre metáforas sobre metáforas. É confuso. É propositado porque não poderia escrever simplesmente sobre um tema que nada tem de simples. Mas agora serei sintético. Haverá sempre tempestades. Haverá sempre necessidade de reconstruir depois da tempestade. Há que não desistir por acontecerem tempestades. E, acima de tudo, tomemos consciência que levaremos algumas tempestades mas teremos na outra mão a capacidade de acabar com muitas delas. Acabar com aquelas que provocamos e, também, algumas que os outros nos provocam.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Qual o destino?

Inevitável e inegavelmente as opiniões dividem-se sobre a existência ao não de um destino para cada pessoa. A existência de um caminho traçado para cada pessoa envolve, em primeira análise, a ausência de liberdade. Porque se tudo está escrito então, na verdade não temos opções e as escolhas são meras ilusões. A possibilidade de uma existência determinística na vida desagrada a qualquer pessoa. E eu não sou exceção.

Portanto analise-se a liberdade. A existência de liberdade pressupõe a capacidade de fazer escolhas que influenciam o rumo que a vida segue. Esta é, felizmente, a experiencia que a maioria de nós tem da vida. Nesta perspetivas frases como “acontece quando tiver que acontecer” ou “se a vida te dá limões faz limonada” não fazem qualquer sentido, porque tudo é aleatório e não há justiça ou karma. E eu, como a maioria das pessoas suponho, não fico satisfeito com esta situação.

Eu sou apologista de uma situação intermédia em que a nossa existência tem um propósito. Há um papel para cada um na vida e, ao longo da vida, vamos sendo confrontados com situações que nos permitem abordar esse propósito. Digo abordar e não cumprir porque temos a liberdade de dizer não ao papel que nos é proposto, podemos escrever outra história. Ainda assim a Vida virá uma e outra vez criar-nos situações para podermos cumprir o proposto. No entanto, garantidamente, se dissermos não ao nosso “destino” então cada um será sempre sempre menos feliz do que poderia ser.

É inevitável para mim entrar, ainda que superficialmente, na questão de Deus dentro deste tema. Deus é omnisciente. Deus sabe, a cada momento, que escolha faremos. No entanto esta circunstância não é limitadora da nossa liberdade. Porque Deus não é imortal mas sim eterno. Deus existe acima do nosso plano existencial, é transversal ao espaço e ao tempo. Assim está em todo o lado a todo o momento. É por isso que não nos prende a liberdade, porque nascemos, vivemos e morremos para lá do plano existencial de Deus. Toda nossa vida é um momento para Ele. Por isso Ele, mesmo sendo interveniente na história de cada pessoa, não limita as suas liberdades. Deus é a Vida e é ele que nos sonhou, nos criou e nos sustenta ao longo da vida. É Ele que, insistente e constantemente, chama a cada um ao seu caminho de felicidade através da santidade.


Sumariando, para mim nascemos na liberdade e para a liberdade. Temos um propósito de vida que podemos ou não cumprir mas é um propósito que nos leva à felicidade. É Deus quem nos chama a esse caminho. Somos livres para O seguir ou não, temos essa liberdade, mas estamos destinados a nos confrontarmos com o sonho dele para cada um de nós.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Socializar pode ser tão viciante

Para algumas pessoas é perfeitamente natural e fácil ficar um dia inteiro em casa. Passar 24 horas sem sair da porta de casa. Para mim, sendo necessário em algumas ocasiões de maior cansaço, é bastante difícil. Não que desgoste da tranquilidade mas sim porque, de corpo e alma, estranho essa calma.

Andar sempre a correr de um lugar para outro, encontrando diversas pessoas em diferentes situações, é algo normal. Sair de noite de casa e chegar de noite a casa é quotidiano. Mas tudo isto cansa, tudo isto me impele a, de vez em quando, me retirar do mundo para recarregar baterias. Ainda assim é com alguma luta interior que evito acabar a contactar pessoas e, assim, retirar-me no descanso que quis para mim. Portanto, num momento assim, sinto-me um autêntico viciado a ressacar.

Mas não deixo de me perguntar porque assim será. Ficar em casa, sozinho, não foi algo a que fui obrigado. Foi algo que eu escolhi fazer, porque senti necessitar. Ainda assim sinto-me impelido a “rentabilizar” o dia. Retirando-me nesta solidão e silêncio que inunda uma casa vazia é possível reencontrar-me. Reencontrar tudo o que passei, reencontrar os motivos de ser quem sou. E permite algo que muitas vezes é difícil. Permite-me ver como, apesar de tudo, eu teria tantas pessoas que gostariam de partilhar o tempo comigo se eu não tivesse feito esta escolha. E é nesta solidão física que menos sozinho me sinto, emocional e psicologicamente. É paradoxal mas é a realidade. O sufoco das pessoas desvirtua o valor de cada uma delas. Por isso eu gosto tanto de socializar, sim, mas não em grandes e heterogéneos grupos.

Aprecio a socialização pessoal, o encontro e o diálogo olhos nos olhos. A partilha de tudo o que se quer dizer, sem o temor de quem poderá ouvir. Aprecio até essa socialização comigo próprio em dias de solidão. Mas, ainda assim, sei que não toleraria vários dias na solidão. Sei que me sufocaria se não pudesse ter com quem falar.

Socializar talvez seja apenas um hábito, que uns têm mais que outros, ou talvez seja mesmo um vício. Porque quanto mais bem-sucedido se é a socializar mais se quer alargar o circulo de contactos. E a tendência para a espiral de loucura e megalomania social está e estará sempre ao virar da esquina. Sei que, se não preservar a relação pessoal que tenho com cada pessoa particular, acabarei por falar com muita gente mas estar cada vez mais sozinho.


Eu preciso de socializar e sei porquê. Porque gosto de valorizar cada pessoa e gosto que cada pessoa valorize a atenção que lhe dou. Tirando do meu tempo, que não recuperarei, para lhe dar. Inteiramente pertencente a essa pessoa, durante o tempo que ali estivermos. Vicio ou hábito pode ser discutido. Mas não se pode discutir que eu, e todas as pessoas, precisamos disso.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Viver nas grandes cidades

Sou uma criatura urbana. Ao longo da minha vida isto não foi sempre óbvio, é um facto. Mas desde que tive o privilégio de poder viver na cidade compreendi o gosto que isso me dá.

A cidade terá muitas desvantagens, desde logo a qualidade do ar, a poluição sonora, o ambiente frio e distante das pessoas. Mas isso, tudo isso, para mim são coisas menores.

A cidade tem inúmeras possibilidades. Há algumas que eu aprecio em particular. Nomeadamente haver sempre espaços novos a poder visitar. Poder sair de casa e visitar um espaço completamente novo é sempre muito refrescante. Poderá parecer pouco mas o impacto provocado na entrada, o tempo perdido a apreciar pormenores, o saborear das comidas e bebidas (ainda que pouco ou nada possam ter de novo) é sempre muito bom, muito rejuvenescedor.

Depois há também uma outra possibilidade que muito estimo, que é a de poder sair à rua para pensar e andar. Poder andar quilómetros e quilómetros, apreciando mais ou menos os lugares, mas sempre na firme convicção de não ter de parar para cumprimentar este, saudar o outro, conversar com um terceiro. Apenas eu, a cidade e os desconhecidos. É o que gosto numa qualquer tarde soalheira de outono, numa manha de primavera ou numa noite de verão. Eu e os meus pensamentos, ambos perdidos na imensidão dos estímulos múltiplos da cidade.

Para mim há uma variação de um gosto muito comum das pessoas. Muita gente diz gostar de conhecer gente nova, eu também gosto, apesar de ser difícil. Mas eu gosto muito, talvez até mais, de ver gente nova. Nas aldeias ou nas cidades menores é difícil ver gente nova, são sempre as mesmas caras iguais. Toda a gente muito parecida, uniforme até. Nas grandes cidades não é assim. Há pessoas de todas as cores, há pessoas muito feias e há pessoas incrivelmente bonitas. Há pessoas comuns e pessoas completamente extravagantes. Há o cheiro meio rural de castanhas assadas no outono e há o cheiro cosmopolita dos perfumes caros vindos de uma qualquer transeunte lá do alto dos seus sapatos de salto alto.

Sei que muita gente perde anos de vida por causa do trânsito. Sei que muita gente foge desta vida de cidade por causa dele. Reconheço que andar no trânsito pode ser muito cansativo (e caro) se houver pressa. Mas se não houver pressa, entrar num autocarro ou no metro é uma viagem pela cidade, obviamente, mas é também um roteiro sociológico e antropológico interessantíssimo, quando há oportunidade para prestar atenção a tudo o que nos rodeia. E eu, sempre que posso, gosto de fazê-lo.

Viver na cidade não é para todos, é óbvio. Mas é para mim, porque gosto. Gosto das coisas que a cidade me dá. Gosto dos cheiros, dos sabores, das sensações, dos olhares dados e trocados e dos sons que a cidade tem. E, vista da minha pele, a cidade é linda!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Zelar por mim

"Let me tell you the secret that has led me to my goals: my strength lies solely in my tenacity." Louis Pasteur

Não me atrevo a negar a evidência que o homem é um animal social e condenado à convivência social. É por isso natural que as pessoas acabem por se apoiar mutuamente e, mais que isso, contem umas com as outras na realização das mais diversas tarefas.

Eu não sou diferente. Mas há alguns momentos e circunstancias da vida em que me apetece dizer a toda a gente que “se eu não zelar por mim, alguém zelará?”. Eu sei que sou melodramático, exagerado e disparatado, talvez. Mas a verdade é que eu, ou qualquer outra pessoa, em determinados momentos tem de cuidar de si própria e tomar as rédeas da própria vida, sob pena de “morrer” à espera de salvação.

Não sou apologista de matar ou morrer. De modo nenhum, a convivência social é importante e deve ser preservada e trabalhada. Mas algo bem diferente é a espera em que muita gente vive, e eu incluído em alguns momentos, de motivação dos outros para fazer algo. O espirito de “quando o tal fizer eu faço também” ou “quando o outro conseguir eu consigo também”. Não pode ser, por vezes, sem ser egocêntrico, é preciso olhar o próprio umbigo e avançar para a luta da vida.

Diria até que se trata de uma questão evolutiva, é a sobrevivência dos melhores adaptados. São aqueles que conseguem enfrentar agruras que mais capacitados estão a subsistir. E eu quero ser um desses. Para isso preciso de encarar a vida tal como ela se me dá no presente. Cada dia o sol nasce para me trazer novos desafios. E sei que muitas vezes ganharei e muitas outras perderei. Mas hoje sei que se me focar quer apenas nas vitórias quer nas derrotas serei sempre um derrotado no final
O truque deverá estar em saber potenciar vitórias e saber analisar e aprender com as derrotas. Não cometer o mesmo erro duas vezes nem apostar em vitórias fáceis dos quais já se sabe a receita mas nada de novo me acrescentam. Procurar novos desafios, melhorar o resultado dos existentes. E crescer, e evoluir, e capacitar-me para ser não melhor mas sim bom. Caminhar para ser feliz.

Tudo isto é saber fazer caminho, nos tempos em que caminho pelo meu próprio pé e naqueles em que caminho apoiado nos outros, até nos tempos em que não sou capaz de caminhar e alguém me carrega. O importante é não parar porque esta é uma corrida não para os mais rápidos mas sim para os mais resistentes. Preciso apenas de saber ser um não desistente.

E, apesar de ser um caminho só meu, não deixo de precisar e até de contar com os outros, mas tudo nos seus momentos. Zelo por mim, zelo pelos outros, zelo por todos, zelo pelo Homem.



domingo, 15 de fevereiro de 2015

“Sou rica e então?”

A língua portuguesa poderia afirmar isso mesmo. É rica, muito rica. Aparentemente muitos querem destitui-la dessa riqueza e torná-la mais “acessível”. Acho que é um pecado das sociedades hoje em dia, lidar mal com a riqueza.
Os ricos tornam-se arrogantes e, por vezes, acabam por cair em desgraça e na penúria. Os pobres são invejosos e querem tirar a riqueza aos ricos e espalha-la pelos pobres. O mérito devia ser premiado e não castigado, parece-me. Quem tem sucesso e enriquece fruto do seu trabalho e experiência deve ser o direito de gozar da riqueza que acumulou. Mas isto é só uma opinião social e política. Vale apenas o que vale, porque vem de alguém sem autoridade alguma. Mas devo dizer, muito claramente, que quem enriquece ilicitamente e à custa do mal feito deve ser castigado duplamente, pelas ações erradas e restituindo tudo o que acumulou ilicitamente.

Curiosamente, tudo isto se aplica igualmente à minha querida língua portuguesa. Enriqueceu à custa de várias influências linguísticas e geográficas. Fruto de uma história rica em sucessos internos e externos acabou por adquirir um vocabulário rico e uma gramática complexa mas funcional. Cresceu forte e viçosa, deu e dá origem a outras línguas filhas, espalhadas pelos cantos do mundo onde chegam portugueses.

Esta vitalidade é, ao mesmo tempo, aquilo que pode ser a sua desgraça. Por ter crescido muito e sido difundida por muitos lugares acaba por ser atacada pelos seus próprios falantes. O desconhecimento da própria língua e cultura é um mal muito perigoso para qualquer nacionalidade ou idioma. A cultura é o que move os povos, a cultura é o que faz nascer países independentes. Uma língua dividida em si própria não pode subsistir.

A língua portuguesa é muito rica, mas é propriedade de todos nós que a falamos. Dessa maneira nós devemos protege-la como coisa nossa que é. Defende-la, poli-la, estimá-la, embeleza-la e, acima de tudo, usa-la cuidadosamente. Usa-la como joia preciosa e única que é.

Este não é um manifesto contra o acordo ortográfico. O português é um só, nas suas diferenças maiores ou menores mas é todo a mesma língua. Tal como o inglês é um e é identificável, falado nos EUA, no Reino Unido ou na Austrália. Os falantes de português têm o dever de proteger a língua que herdaram. Têm o dever de querer saber falar bem. Têm o dever de diversificar legitimamente o vocabulário e não introduzir estrangeirismos para realidades já identificadas.


Não é apenas uma questão de língua. É uma questão de cultura. É uma questão de império e poder. É uma questão de História. Devemos honrar a língua como honramos a bandeira e o hino. Seria ótimo que um texto bem articulado, declamado e rico como esta nossa língua nos possibilita nos causasse tanta comoção quanto o Hino Nacional num qualquer evento desportivo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Os mortais de Camões na tumba

“A cultura não é um substituto para a vida, mas a chave para ela.” Mallock

Muitas vezes digo, quando alguém comete um erro gramatical grave na fala ou na escrita, que até o Camões deu um mortal na campa com tamanha asneira. Pois bem, acho que é seriamente de considerar levar os restos mortais do poeta e mestre da língua às próximas Olimpíadas. Ele já deve ter aperfeiçoado a técnica com tanto disparate dito e escrito.

Eu sei ser particularmente sensível. Sei até que sou demasiado exigente comigo e com os outros no que toca à linguagem. Uso e abuso de um vocabulário muitas vezes excessivamente erudito. Mas gosto de falar bem e falar variado, chamem-me doente se quiserem!

Seja como for parece-me inaceitável que as pessoas, por vezes publicamente, digam barbaridades de fazer corar qualquer professor de primeiro ciclo. Ah, esperem! Talvez não, há professores hadem achar normal. Por favor, meus caros e minhas caras, respeitem o provável maior património que este país ainda detém, a sua língua!

Felizmente, ou não, a barbárie das gentes lusas no que toca à correção linguística estende-se às outras línguas que falamos. E nem estou a falar de emigrantes, estou sim a falar de senhores professores universitários que tratam o inglês com a mesma displicência com que o calceteiro trata o martelo. É só levantar a mão/soltar a língua e cá vai disto! Arrepia qualquer um! Por isso, cá para mim, nos Jogos Olímpicos as medalhas na ginástica serão partilhadas entre o Camões, o Cervantes e o Shakespeare. Mas isto sou só eu a conjeturar.

 Há sempre aqueles que dizem não valer a pena travar esta batalha contra a chacina das línguas. Eu não podia discordar mais! Vale a pena sim! Ainda que seja mal interpretado, quiçá ostracizado por alguns mas raios me partam se posso permitir pontapés linguísticos à minha volta!

É erróneo pensar-se que esta questão tem culpados nomeáveis. Não tem, passa desde os professores dos meninos, aos pais dos meninos, aos professores dos pais dos meninos, e por ai acima. Cabe a cada um hoje, sim hoje mesmo, começar a batalhar por um país mais limpo dessa poluição sonora tenebrosa que são os pontapés na língua portuguesa!

Poderia agora apontar uma série de erros comuns mas sabem que mais? Seria ótimo que já os tivessem reconhecido e, portanto, não precisassem de os ver relembrados. Vou ali vestir a armadura e montar o cavalo que a batalha urge. Digo apenas, por último, que me faz sentir um pouco D. Quixote a travar batalhas contra moinhos neste tempo em que o Acordo Ortográfico está a entrar nas vidas e nas escritas de toda a gente e a modificar a língua que conheci.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Era uma vez…

Saindo do óbvio e repensando aquilo que se diz ao começar uma história percebo que ou eu ou o português somos muito estúpidos neste particular. Então se era uma vez significa que outra vez já não era. Mas há sequer outra vez? Sem dúvida que é suposto que esta expressão nos transporte para uma realidade alternativa. E fá-lo, mas parece-me que o faz de uma maneira tonta. Ainda para mais remete para um passado. E todos nós gostamos de deixar o passado sossegado, principalmente as crianças. Nessa medida nem sei como este tipo de abordagem tem sequer sucesso para as crianças. Pensando bem até percebo, a verdade é que as crianças não se preocupam com este tipo de pormenores. As crianças isolam tudo o que é acessório para se focar no essencial. Essa é uma capacidade que se vai perdendo com o tempo.

Esta expressão, há que reconhecer, é muito eficiente em isolar o episódio que se vai contar de tudo o resto. Ou seja, esta expressão permite destacar a mensagem contida de toda uma circunstância circundante à ação da história. E haverá sempre perguntas por fazer e por responder à volta dos contos infantis. Por exemplo, a avó do Capuchinho sofria claramente de falta de cuidados geriátricos. Parece-me óbvio que uma casa no meio da floresta não fornece as condições de pronto-socorro que, para todos os efeitos, a terceira idade cada vez mais exige. Outro exemplo, alguém teve o cuidado de analisar quimicamente o sangue da Alice? A história por ela protagonizada tem contornos de alucinação severa, potencialmente com origem em fármacos ou estupefacientes de origem não identificada. Em geral diria que as figuras parentais, nas histórias infantis, têm uma atuação a todos os níveis questionável. Mandem os filhos e as filhas sozinhos para as florestas, não tomam precauções para evitar acidentes com engenhos de coser, abandona-los horas a fio nos quartos em densos episódios de alucinação com brinquedos, em geral um caos familiar.

Não posso, obviamente, ignorar os contos em que os animais são dotados com características muito humanas. Essas histórias, não aprofundando a interrogação sobre a real capacidade de comunicação entre espécies, têm como objetivo fundamental a formação ética e moral da juventude. Como o fazem? Criando potenciais ilusões nas pequenas mentes ávidas de todas as informações. Ou seja, começa-se a formar homens e mulheres com base em mentiras, muitas vezes permitindo que os petizes se deixem levar em ilusões. E a desculpa, mais uma vez, é que “era uma vez”. Como se as crianças soubessem, ou pudessem saber o que “era uma vez” realmente significa! Talvez esteja a ser demasiado duro, talvez as metáforas, as alegorias e as parábolas sejam o único meio eficiente de transmitir mensagens tão relevantes para destinatários tão pobremente dotados de conhecimentos.

Acima de tudo, penso eu, é preciso que o “era uma vez” não fique só por essa vez. É preciso que quem o usa saiba transpor o que se quer tirar dessa vez e aplicar nesta vez. Esta vez que é a de cada pessoa para viver. Eu peguei alguns dos “era uma vez” e faço o melhor uso possível na minha vez de viver. Por exemplo, sou muito mais tartaruga que lebre. E acreditem, já ultrapassei muitas lebres pretensiosas com as quais me fui cruzando!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Cicatrizes e sinais do tempo

A cada data que merece recordação acontece a constatação de quanto o tempo passa depressa. Uma pessoa pode celebrar 30 anos e há sempre uma tia que diz “ainda ontem te tinha no meu colo”, ou passam-se 10 anos da morte de um pai e o momento da ultima despedida é como se tivesse acabado de acontecer ou até passam-se meses de uma grande festa e inspirando fundo ainda se sente o cheiro a cerveja seca e a fumo e ainda se sente o leve inebriar o álcool a circular no sangue. A memória é assim, fiel mas enganadora. Tal como a Lua.

As pessoas envelhecem e mudam. O sol nasce e põe-se todos os dias, à nossa vista. As árvores ficam viçosas na primavera e decaem ao longo das estações seguintes. Tudo isso são sinais da passagem do tempo. E, ainda assim, ele é sempre tão breve em retrospectiva mas tão longo na passagem e tão distante no futuro. À segunda-feira a sexta-feira ainda vem longe mas o sabor daquele prato comido há três anos ainda está cá. Aos 25 anos os 40 ainda vêm longe mas foi ontem que entrámos no 5º ano (é a mesma distância).

Por isso gosto de cicatrizes. Cicatrizes literais e metafóricas. Porque as cicatrizes envelhecem como nós. Relembram-nos como aquilo que parece tão perto no passado afinal talvez esteja mais longe. E assim também permite olhar o presente e o futuro com outros olhos, com uma perspetiva mais realista de quanto tempo temos, quanto tempo nos falta e quanto o tempo nos marcará para passar.

Por falar em olhos, penso que as cicatrizes acabam por ter um papel como o de uma segunda lente ou um segundo olho para observar a passagem do tempo. Tal como na visão são precisas duas perspetivas angularmente próximas para percecionar distancias então o mesmo se passa com a passagem do tempo. É preciso não apenas a memória da passagem do tempo mas também o testemunho físico dessa passagem, como uma cicatriz ou uma fotografia, para, mais fielmente podermos ver como o tempo passou. Como ele nos marcou e nos mudou. Como ele nos molda, como a sua torrente inegável e inevitavelmente acaba por nos limar arestas.


Tal como pedras, a vida e o tempo moldam as pessoas e moldam o mundo. Moldam no choque entre pessoas, como pedras angulosas no leito do rio, e moldam e alisam com os pequenos atritos da vida, como areias do mar. Sendo pequenas escavam, pouco a pouco, grutas e enseadas na costa. Assim também a vida nos faz. E esta observação não é, intrinsecamente, boa ou má. Mas é inevitável dizer que o mesmo mar e a mesma areia que moldaram as mais belas paisagens deste planeta também provocaram e provocam o desabamento de arribas. Felizmente, ao contrário das rochas, nós detemos algum controlo sobre a erosão que nos é provocada. Por isso deixemos moldar-nos belos e agradáveis mas não nos permitamos, nem permitamos que outros acabem por desabar por força dessas pequenas areias que nos atingem diariamente.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Se trabalhar fosse bom tinha que se pagar

Hoje em dia há a ideia transversal e generalizada que as pessoas devem procurar seguir o seu emprego de sonho. Trabalhar em algo de que gostam. Até aqui tudo muito justo mas depois, como sempre, acontece o exagero. Não me parece justo que se explorem os gostos das pessoas e se faça do trabalho um passatempo. Não o é nem o será nunca! O trabalho deve ser pago justamente, mesmo que aquela pessoa goste do trabalho que tem.

Os hobbies são, naturalmente, atividades pelas quais se tem que pagar para usufruir. É justo, precisamente porque são fruto do trabalho de alguém. Falo, por exemplo, de cinema ou mesmo de uma atividade desportiva e competitiva onde muitos pais investem parte do seu dinheiro para ter os filhos. É normal e justo que assim seja.

Muito menos justo é que, em algumas áreas do trabalho, cada vez mais, surjam propostas de trabalho voluntário ou ridiculamente pago. O que é natural é que as empresas, que retiram lucro do trabalho dos funcionários compensem esses mesmos funcionários com um ordenado justo. Os jovens terem que investir o seu dinheiro (correção: o dinheiro dos pais) em deslocações e refeições para poderem desempenhar um trabalho é uma perversidade da sociedade atual.

Mas não os equivoquemos, se estas situações existem é porque há quem aceite tomar parte delas. E digo claramente, quem aceita estas condições não só se prejudica a si próprio, desvalorizado o seu próprio trabalho e investimento pessoal, como também prejudica os seus pares e gerações futuras, abrindo precedente a práticas que são, no mínimo, muito pouco éticas.

Não nego a evidência que, um pouco por todo o lado mas em Portugal em particular, se atravessam tempos difíceis nos quais o dinheiro não abunda e, por isso, há uma dificuldade real em pagar vencimentos superiores e, provavelmente, mais de acordo com os preços do mercado. Entende-se isto mas já não se entende que as entidades patronais, desrespeitando as pessoas, ofereçam ordenados abaixo do necessário e do justo para sobreviver e/ou sobrecarreguem os funcionários com muito mais trabalho do que aquele que eles deveriam fazer.


Mais uma vez, como já tinha dito antes, é bom trabalhar para viver, para se sustentar e sustentar os seus. Já não é bom, é mau mesmo, que se viva e se dedique todo o tempo apenas a trabalhar, não dando oportunidade à família, ao tempo livre e a todo o mundo “lá fora”. Do diretor geral até ao menor dos funcionários, todos devem procurar criar uma situação mais justa. As empresas devem produzir riqueza, é verdade, mas já agora que tal essa riqueza não ser apenas material mas ser também humana? Fica a ideia…

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Olho-te nos olhos

Dizem que os olhos são porta para a alma. Para mim são mais que isso, são porta para outra dimensão. São porta para o outro mundo. O mundo que existe nos olhos que é dona daqueles olhos. E os mesmos lugares, as mesmas pessoas são outros lugares, outras pessoas. A realidade funde-se com o sentimento, pintando a realidade com outros tons, outras cores. O mundo já não é só o mundo. É o mundo daquela pessoa.

Os olhos são de muitas cores. E cada cor, diz-se, tem o seu significado. Para mim aquela genética imperiosa que dita a coloração do globo ocular não é dissociável da genética que determina, pelo menos em parte, muitas outras características, nomeadamente psicológicas e emocionais da pessoa. Por isso, sem misticismo, acredito que a cor dos olhos significa mesmo algo na personalidade da pessoa. Não sei o significado de cada cor. Só posso falar do fascínio que me provocam os olhos de cada pessoa.

Só por pudor não fico, tantas vezes, perdido a admirar o olhar das pessoas. Sejam azuis, castanhos, verdes ou pretos, tenho a tentação de mergulhar no fundo desse olhar e beber de tudo o que essa fonte tiver para me dar. Saber do mundo, saber da vida, saber da pessoa, saber de nós naquele olhar. No fundo dos olhos mora toda a vida. No fundo dos olhos está o fundamental da nossa existência, física, emocional e psicológica. Entrando pelos olhos mata-se alguém num instante. Os olhos são e serão sempre esse fino fio que separa a nossa vida da nossa morte.

O mundo entra-nos por todos os sentidos. Mas podemos não tocar as realidades dolorosas. Podemos não cheirar as podridões da vida. Podemos não ouvir as palavras como facas que nos dilaceram. Podemos não saborear as amarguras da existência. Mas jamais poderemos ignorar as visões do mal com que nos cruzamos. As realidades entram-nos pelos olhos dentro, diz o povo. Não é acaso que esse monstro velho e sábio que é a História nos ensina esta lição.

Podemos fechar os olhos para que o mundo não nos entre pelos olhos. Mas sabemos que, mais tarde ou mais cedo, teremos de os reabrir e enfrentar o mundo. Assim é com as agruras. Podemos ignorá-las, fingir que não estão lá. Mas um dia teremos de ficar face a face com elas. E esses encontros ficarão certa e imediatamente, marcados nos nossos olhos e no nosso olhar.

E eu olho-te nos olhos. A ti, que és ninguém e és toda a gente. A ti, que sou eu no espelho e é cada transeunte que comigo se cruza todos os dias. E nos teus olhos tenho um relance do teu mundo, e nos teus olhos vejo todas as maravilhas que a vida te oferece diariamente e também todos os desafios que enfrentas com bravura e aqueles que te subjugam. Nos olhos vejo toda a dimensão da existência e todo o nada que é esta vida que hoje existe e amanhã termina.


Esses olhos perecíveis com que somos bafejados em sorte todos os que não nascem cegos. Esses olhos um dia apodrecerão e desaparecerão. E mesmo assim, circunscritos a um espaço curto de tempo de existência, são portal para o infinito. Esse infinito real e esse infinito transcendente de todas as imaginações que até os cegos têm!

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Dias de luta, dias de glória

“Always do your best. What you plant now, you will harvest later.”  Og Mandino

Hoje lembrei-me desse título de uma música que preencheu os meus dias há uns anos atrás. O estilo não me era particularmente agradável mas a letra pesava-me e ainda me pesa.

Toda a gente tem dias de luta e dias de glória na vida. Eu também. Mas o curioso aqui é que dito assim, de seguida, faz parecer que são os mesmos dias que são de luta e glória. Pois bem, nada mais errado.

Desde logo os dias de luta serão muitos mais que os dias de glória. Mais, muitos dias de luta serão totalmente inglórios mas, em boa verdade, a maioria dos dias de glória envolveram algum sacrifício na luta.

É óbvia a analogia com um maratonista que, ganhando, tem ali o seu dia de glória. Mas é também um dia de luta no percurso daquela distância que separa a partida da meta. É, para este caso, obvia a circunstancia que, muito antes do tiro de partida, já esse atleta teve de correr muito. Só praticando muito, física e mentalmente, é possível chegar ao dia da prova em condições de, no mínimo, competir condignamente. E a distância entre a simples luta e a glória é muito ténue.

Assim também o é em muitas outras circunstâncias da vida. Lembro-me como me atacava a forte desmotivação para estudar apenas porque o estudo não produz resultados palpáveis e, muito menos, imediatos. É preciso entrar num espirito de agricultor para enfrentar a vida.

Este espirito de agricultor de que falo é a capacidade de repousar a mente e sossegar sabendo que se prepara o terreno hoje, se planta na semana que vem, se vai cuidando e regando ao longo dos meses e só sem tem colheita, e glória, daqui a alguns meses. É assim para a agricultura, como o é para o estudo, para as relações, para o trabalho, ou tantas outras coisas.

Mas o mundo hoje não nos ensina paciência. Ensina sofreguidão, imediatismo e urgência. Então como se pode conjugar tudo isto e conseguir viver em harmonia com este mundo? Pois, acho que para esta pergunta eu próprio não tenho resposta. Sinto só me restar remar contra esta maré. Eu escolhi um caminho de paciência e de luta incessante. Muitos dias de luta para uns poucos de glória verdadeira. O mundo quer muitos dias de glória com poucos dias de luta. Só no meu leito de morte poderei concluir quem tem razão afinal.


Ah, mas não me equivoco! Eu “sou a diferença que quero ver no mundo” como sugeriu um dia Gandhi. Alguma razão terá, já que tanta luta paciente pela paz travou e, a seu tempo, teve a glória tão merecida!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O mal é natural?

No livro “Nova Teoria do Mal” é defendido que o mal é a tendência natural do Homem e que o bem é uma anomalia no sistema. Quando me confrontei com esta tese fiquei chocado, mas refleti sobre o assunto e hoje não sou capaz de a refutar liminarmente.

Todos os dias as notícias são, na sua maioria, sobre coisas más que acontecem e, na maior parte dos casos, com maior ou menor intervenção direta dos homens. Já noticias de boas obras são raras. Dir-se-á que o bem não vende. Até pode ser verdade, mas isso, em si, já é prova que o mal nos é natural, já que não queremos saber do bem que podemos fazer.

Penso que é experiencia comum que o mal é muito mais fácil de fazer do que o bem. É muito mais fácil furar uma fila passando à frente das outras pessoas do que ceder passagem a alguém numa fila. Aliás, fazer bem é até embaraçoso, já fazer o mal é apenas lamentável.

Gostaria imenso de saber responder porque o mal nos é tão natural, porque tão fácil dizer sim à asneira e não à boa ação. E nem sequer é um problema cuja cura seja fácil, quer pessoal quer socialmente. Aliás, diz-se à boca cheia por todo lado que as crianças são cruéis. Quem ensina às criaturas de tão tenra idade tamanha maldade. Só podem ser os seus educadores. Ou seja o mal anda a passar de geração em geração.

Então e o bem? Não é o Homem capaz de fazer bem. Claro que sim! Felizmente sim! Sobram exemplos de homens e mulheres que se destacaram dos outros pelo bem que fizeram. Mas nem esses se podem dizer inimputáveis. E existem de todas as raças, nacionalidades e credos, o bem não escolhe pessoas para se manifestar. Mas até esses, em algum momento foram capazes de fazer mal. O mesmo não se aplica aqueles conhecidos por fazer mal, para esses é comum não se conhecer bem praticado. Ou seja o bem acaba por ser a anomalia no sistema de mal.

Então nada há a fazer? Errado! Muito errado! Há tudo a fazer! O Homem evolui constantemente e, por isso mesmo, é sempre tempo de mudar. Fazendo pequenas coisas podemos alcançar o impossível, já dizia S. Francisco! Se o mal tem passado de geração em geração então peguemos as rédeas do nosso destino e façamos que seja criada uma geração de bem!


Depois da geração de bem será este a ser passado à descendência. E, assim, geração a geração, até todos sermos aderirmos ao bem em favor do mal. E esse dia chegará! Eu sei, e é propositado, que este texto termina de uma forma apocalíptica. No bom sentido, claro!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Inspirações e aspirações

Há uma empresa, cujo ramo não conheço, mas que tem como slogan Aspire today, inspire tomorrow (Aspira hoje, inspira amanhã). Esta frase é extremamente curiosa e motivacional, sem dúvida. Convoca-nos a aspirar e ambicionar hoje para amanhã sermos inspiradores da próxima geração. É uma boa motivação, sem dúvida!

Mas o que me leva a escrever estas linhas é a homonomia destas palavras. Inspirar (alguém) e inspirar (ar) são coisas muito diferentes ou muito parecidas? E aspirar (a ser alguém) e aspirar (a casa)? Estas parecem muito diferentes, mas, cá para mim, aspiro chegar ao diga em que tenha vontade de aspirar. Agora sem brincadeira, talvez esta homonomia não seja coincidência neste segundo caso também.

Comece-se então por inspirar (ar, entenda-se). Aquele momento de inspiração (ainda de ar) que antecede um mergulho fundo é uma sensação conhecida pela maioria das pessoas. Parece-me que antes de outros mergulhos metafóricos na vida também precisamos de momentos de parar para uma inspiração profunda (agora sim por alguém). Julgo que ninguém se aventura em negócios ou projetos arriscados ou novos sem ter o exemplo de alguém, um caso de sucesso para perseguir. No fundo um farol para guiar num caminho que, muitas vezes, é escuro e vazio de mais referências. E, sem essa reserva de ânimo, esse mergulho metafórico está condenado ao insucesso. Tal como está a ambição de chegar ao fundo do mar sem uma forte inspiração antes de mergulhar.

Quanto a aspirações (da casa) o que há a dizer é que é uma ideia pré-concebida que se aspira o que é mau. Pó, sujidades, areia, restos disto e daquilo mas nada de interessante. Mas a verdade é que o aspirador (lá de casa) absorve tudo por onde o bocal passa. Será assim tão diferente de quem aspira (tornar-se alguém)? Não há a mesma sofreguidão em recolher tudo para o seu interior, sentir-se cheio e preenchido? Pois é, imagine-se agora que se aspirava um chão cheio de moedas e outros itens valiosos. Qual o valor daquilo que ficava no interior? Enorme, efetivamente. Pois bem, as pessoas que aspiram também sugam tudo o que de valioso lhes chega perto e, no interior de si mesmas, fica um depósito de enorme valor que poderão usar para perseguir esse sonho que nasceu.


Portanto resta-me dizer que não devemos abandonar as nossas aspirações (em ambos os sentidos), nem esquecer da importância da inspiração (de ar, dos outros para nós e de nós para os outros) antes de cada mergulho que damos na vida.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A lição de Ícaro

“What you get by achieving your goals is not as important as what you become by achieving your goals.”  Henry David Thoreau

Hoje falo de ambição e de ambiciosos. A lenda de Ícaro conta que este homem quis voar demasiado perto do Sol e, por isso, as suas asas de cera derreteram e acabou por morrer com a queda. Diferentes perspetivas desta lenda se podem ter, eu tentarei discorrer sobre elas.

Desde logo há quem veja, e talvez esta seja a interpretação mais comum, que Ícaro morre por ser demasiado ambicioso. Ambicioso ele foi, quanto ao demasiado já é discutível. Ninguém pode negar que ele voou. Ele ultrapassou as barreiras da condição humana e entrou no território das aves, o céu. Talvez, como disse uma vez uma rainha portuguesa, “mais vale rainha por um dia do que duquesa para toda a vida”. Mas eu não sou nem Ícaro nem da opinião que ele foi demasiado ambicioso.

Há também quem defenda que o erro dele foi a má escolha de meios. Há que confessar que, à luz do conhecimento atual, asas de cera é uma ideia terrível. E portanto Ícaro poderia ter sido bem-sucedido se não tivesse arriscado com uma solução mal testada e mal calculada. Mas nada nos diz que se ele não arriscasse saberia que não resultava. Eu também não sou da opinião que lhe faltou preparação ou que errou na escolha de meios.

A minha posição perante esta questão, e até perante a minha própria vida, é que não é só o que se faz (ou diz) mas também como se faz (ou diz). Ou seja, ao contrário de Ícaro eu gosto de avançar lentamente e com passos calculados. Mas nem por isso deixo de sonhar alto, e nisso sou muito semelhante a ele. Ao contrário dele eu gosto também de ter salvaguardas, mecanismos de segurança, para-quedas. E gosto de ter vários caminhos estudados para o mesmo destino, varias hipóteses de conceção e materiais para me fazer voar até perto do Sol. Mas sou igual a ele em pensar que todas as hipóteses merecem ser testadas adequadamente.

Ícaro pagou um preço elevado pela sua ambição, pagou com a vida a concretização do seu sonho, mas cumpriu-o. Quantos perdem a vida sem nunca poderem ou tentarem cumprir os seus sonhos? É triste que assim seja, e eu não quero ser um desses. Antes morrer feliz como Ícaro! Aliás diria, em jeito de comentário de rodapé, que os santos morrem também atrás do seu sonho de felicidade eterna. E morrem felizes porque o vêem cumprido.


Diria então que não devemos cortar as asas aos nossos sonhos, devemos segui-los. Mas devemos apetrechar-nos de tudo o necessário para garantir que podemos criar condições para os concretizar. E depois, no momento da verdade, temos de saber escolher arriscar tudo pela concretização daquele sonho particular ou se temos outra hipótese, mais segura para o concretizar sem tantos riscos. Acima de tudo não podemos deixar de ambicionar. Não ambicionar ter mais, mas sim ambicionar ser mais. Não apenas ser o homem que tem asas mas sim ser o homem que voou junto ao Sol.

Questões existenciais

Hoje não sei o que escrever. Milhões de ideias percorrem a minha mente, mas mentiria se dissesse que estou satisfeito com alguma delas. Não estou!

Só sei que quero escrever. Talvez seja aborrecimento de mais um dia com nada a fazer. Talvez seja a vontade de uma dia iniciar aquela escrita que, continuada, poderá tornar-se testemunho da minha passagem discreta por este mundo. Não sei!

Mas sei que preciso escrever. Preciso escrever todas as minhas alegrias e amarguras, as minhas dúvidas e certezas, as minhas perguntas e as minhas respostas. Quero uma prosa inventiva e quero a poesia sem imaginação. Quero a vida!

Desejo escrever. Tremem-me os dedos sobre as teclas, vagueiam os olhos em busca de inspiração, respiro rapidamente com a adrenalina, mexe a boca pronunciando palavras em surdina, as palavras que, suando, passam para esta folha. Não me satisfazem!

Não sei como escrever. Preciso de um estilo, de um fio condutor. Preciso de uma estrada que me leve daqui aos confins da imaginação. Quero um rio onde fluam as palavras, que desague num mar de um texto coeso e interessante! Quero asas para voar e fazer ecoar as minhas palavras do topo do Olimpo da escrita, que elas façam eco em muitos ouvidos e corações. Desejo que me oiçam!

Escrevo. Faço-o para mim, faço-o compreensível para mim. Sou eu que escrevo para esse Tu que sou eu. No fundo escrevo para um Tu que sou eu. Um Tu que ficou preso nessa infância confusa que passou mas que marcou. E nessa roda livre, nesse turbilhão de pensamentos acabo por repousar. E como quem dorme numa rua de Nova Iorque eu acalmo. E deixo de escrever. Não será hoje que o livro começa. Paro!

Escrevo. Faço-o para mim, faço-o compreensível para muita gente. Liberto-me das amarras das minhas ideias, das minhas palavras, do meu vocabulário. Abro os grilhões do estilo, dos parágrafos todos iguais, das frases enormes. Quero abrir asas!


É hoje!