quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Viver nas grandes cidades

Sou uma criatura urbana. Ao longo da minha vida isto não foi sempre óbvio, é um facto. Mas desde que tive o privilégio de poder viver na cidade compreendi o gosto que isso me dá.

A cidade terá muitas desvantagens, desde logo a qualidade do ar, a poluição sonora, o ambiente frio e distante das pessoas. Mas isso, tudo isso, para mim são coisas menores.

A cidade tem inúmeras possibilidades. Há algumas que eu aprecio em particular. Nomeadamente haver sempre espaços novos a poder visitar. Poder sair de casa e visitar um espaço completamente novo é sempre muito refrescante. Poderá parecer pouco mas o impacto provocado na entrada, o tempo perdido a apreciar pormenores, o saborear das comidas e bebidas (ainda que pouco ou nada possam ter de novo) é sempre muito bom, muito rejuvenescedor.

Depois há também uma outra possibilidade que muito estimo, que é a de poder sair à rua para pensar e andar. Poder andar quilómetros e quilómetros, apreciando mais ou menos os lugares, mas sempre na firme convicção de não ter de parar para cumprimentar este, saudar o outro, conversar com um terceiro. Apenas eu, a cidade e os desconhecidos. É o que gosto numa qualquer tarde soalheira de outono, numa manha de primavera ou numa noite de verão. Eu e os meus pensamentos, ambos perdidos na imensidão dos estímulos múltiplos da cidade.

Para mim há uma variação de um gosto muito comum das pessoas. Muita gente diz gostar de conhecer gente nova, eu também gosto, apesar de ser difícil. Mas eu gosto muito, talvez até mais, de ver gente nova. Nas aldeias ou nas cidades menores é difícil ver gente nova, são sempre as mesmas caras iguais. Toda a gente muito parecida, uniforme até. Nas grandes cidades não é assim. Há pessoas de todas as cores, há pessoas muito feias e há pessoas incrivelmente bonitas. Há pessoas comuns e pessoas completamente extravagantes. Há o cheiro meio rural de castanhas assadas no outono e há o cheiro cosmopolita dos perfumes caros vindos de uma qualquer transeunte lá do alto dos seus sapatos de salto alto.

Sei que muita gente perde anos de vida por causa do trânsito. Sei que muita gente foge desta vida de cidade por causa dele. Reconheço que andar no trânsito pode ser muito cansativo (e caro) se houver pressa. Mas se não houver pressa, entrar num autocarro ou no metro é uma viagem pela cidade, obviamente, mas é também um roteiro sociológico e antropológico interessantíssimo, quando há oportunidade para prestar atenção a tudo o que nos rodeia. E eu, sempre que posso, gosto de fazê-lo.

Viver na cidade não é para todos, é óbvio. Mas é para mim, porque gosto. Gosto das coisas que a cidade me dá. Gosto dos cheiros, dos sabores, das sensações, dos olhares dados e trocados e dos sons que a cidade tem. E, vista da minha pele, a cidade é linda!

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