Sou uma criatura urbana. Ao longo da minha vida isto não foi
sempre óbvio, é um facto. Mas desde que tive o privilégio de poder viver na
cidade compreendi o gosto que isso me dá.
A cidade terá muitas desvantagens, desde logo a qualidade do
ar, a poluição sonora, o ambiente frio e distante das pessoas. Mas isso, tudo
isso, para mim são coisas menores.
A cidade tem inúmeras possibilidades. Há algumas que eu
aprecio em particular. Nomeadamente haver sempre espaços novos a poder visitar.
Poder sair de casa e visitar um espaço completamente novo é sempre muito
refrescante. Poderá parecer pouco mas o impacto provocado na entrada, o tempo
perdido a apreciar pormenores, o saborear das comidas e bebidas (ainda que
pouco ou nada possam ter de novo) é sempre muito bom, muito rejuvenescedor.
Depois há também uma outra possibilidade que muito estimo,
que é a de poder sair à rua para pensar e andar. Poder andar quilómetros e
quilómetros, apreciando mais ou menos os lugares, mas sempre na firme convicção
de não ter de parar para cumprimentar este, saudar o outro, conversar com um
terceiro. Apenas eu, a cidade e os desconhecidos. É o que gosto numa qualquer
tarde soalheira de outono, numa manha de primavera ou numa noite de verão. Eu e
os meus pensamentos, ambos perdidos na imensidão dos estímulos múltiplos da
cidade.
Para mim há uma variação de um gosto muito comum das
pessoas. Muita gente diz gostar de conhecer gente nova, eu também gosto, apesar
de ser difícil. Mas eu gosto muito, talvez até mais, de ver gente nova. Nas aldeias
ou nas cidades menores é difícil ver gente nova, são sempre as mesmas caras
iguais. Toda a gente muito parecida, uniforme até. Nas grandes cidades não é
assim. Há pessoas de todas as cores, há pessoas muito feias e há pessoas
incrivelmente bonitas. Há pessoas comuns e pessoas completamente extravagantes.
Há o cheiro meio rural de castanhas assadas no outono e há o cheiro cosmopolita
dos perfumes caros vindos de uma qualquer transeunte lá do alto dos seus
sapatos de salto alto.
Sei que muita gente perde anos de vida por causa do
trânsito. Sei que muita gente foge desta vida de cidade por causa dele.
Reconheço que andar no trânsito pode ser muito cansativo (e caro) se houver
pressa. Mas se não houver pressa, entrar num autocarro ou no metro é uma viagem
pela cidade, obviamente, mas é também um roteiro sociológico e antropológico
interessantíssimo, quando há oportunidade para prestar atenção a tudo o que nos
rodeia. E eu, sempre que posso, gosto de fazê-lo.
Viver na cidade não é para todos, é óbvio. Mas é para mim,
porque gosto. Gosto das coisas que a cidade me dá. Gosto dos cheiros, dos
sabores, das sensações, dos olhares dados e trocados e dos sons que a cidade
tem. E, vista da minha pele, a cidade é linda!
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