domingo, 15 de fevereiro de 2015

“Sou rica e então?”

A língua portuguesa poderia afirmar isso mesmo. É rica, muito rica. Aparentemente muitos querem destitui-la dessa riqueza e torná-la mais “acessível”. Acho que é um pecado das sociedades hoje em dia, lidar mal com a riqueza.
Os ricos tornam-se arrogantes e, por vezes, acabam por cair em desgraça e na penúria. Os pobres são invejosos e querem tirar a riqueza aos ricos e espalha-la pelos pobres. O mérito devia ser premiado e não castigado, parece-me. Quem tem sucesso e enriquece fruto do seu trabalho e experiência deve ser o direito de gozar da riqueza que acumulou. Mas isto é só uma opinião social e política. Vale apenas o que vale, porque vem de alguém sem autoridade alguma. Mas devo dizer, muito claramente, que quem enriquece ilicitamente e à custa do mal feito deve ser castigado duplamente, pelas ações erradas e restituindo tudo o que acumulou ilicitamente.

Curiosamente, tudo isto se aplica igualmente à minha querida língua portuguesa. Enriqueceu à custa de várias influências linguísticas e geográficas. Fruto de uma história rica em sucessos internos e externos acabou por adquirir um vocabulário rico e uma gramática complexa mas funcional. Cresceu forte e viçosa, deu e dá origem a outras línguas filhas, espalhadas pelos cantos do mundo onde chegam portugueses.

Esta vitalidade é, ao mesmo tempo, aquilo que pode ser a sua desgraça. Por ter crescido muito e sido difundida por muitos lugares acaba por ser atacada pelos seus próprios falantes. O desconhecimento da própria língua e cultura é um mal muito perigoso para qualquer nacionalidade ou idioma. A cultura é o que move os povos, a cultura é o que faz nascer países independentes. Uma língua dividida em si própria não pode subsistir.

A língua portuguesa é muito rica, mas é propriedade de todos nós que a falamos. Dessa maneira nós devemos protege-la como coisa nossa que é. Defende-la, poli-la, estimá-la, embeleza-la e, acima de tudo, usa-la cuidadosamente. Usa-la como joia preciosa e única que é.

Este não é um manifesto contra o acordo ortográfico. O português é um só, nas suas diferenças maiores ou menores mas é todo a mesma língua. Tal como o inglês é um e é identificável, falado nos EUA, no Reino Unido ou na Austrália. Os falantes de português têm o dever de proteger a língua que herdaram. Têm o dever de querer saber falar bem. Têm o dever de diversificar legitimamente o vocabulário e não introduzir estrangeirismos para realidades já identificadas.


Não é apenas uma questão de língua. É uma questão de cultura. É uma questão de império e poder. É uma questão de História. Devemos honrar a língua como honramos a bandeira e o hino. Seria ótimo que um texto bem articulado, declamado e rico como esta nossa língua nos possibilita nos causasse tanta comoção quanto o Hino Nacional num qualquer evento desportivo.

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