A língua portuguesa poderia afirmar isso mesmo. É rica,
muito rica. Aparentemente muitos querem destitui-la dessa riqueza e torná-la
mais “acessível”. Acho que é um pecado das sociedades hoje em dia, lidar mal
com a riqueza.
Os ricos tornam-se arrogantes e, por vezes, acabam por cair
em desgraça e na penúria. Os pobres são invejosos e querem tirar a riqueza aos
ricos e espalha-la pelos pobres. O mérito devia ser premiado e não castigado,
parece-me. Quem tem sucesso e enriquece fruto do seu trabalho e experiência
deve ser o direito de gozar da riqueza que acumulou. Mas isto é só uma opinião
social e política. Vale apenas o que vale, porque vem de alguém sem autoridade
alguma. Mas devo dizer, muito claramente, que quem enriquece ilicitamente e à
custa do mal feito deve ser castigado duplamente, pelas ações erradas e
restituindo tudo o que acumulou ilicitamente.
Curiosamente, tudo isto se aplica igualmente à minha querida
língua portuguesa. Enriqueceu à custa de várias influências linguísticas e
geográficas. Fruto de uma história rica em sucessos internos e externos acabou
por adquirir um vocabulário rico e uma gramática complexa mas funcional.
Cresceu forte e viçosa, deu e dá origem a outras línguas filhas, espalhadas
pelos cantos do mundo onde chegam portugueses.
Esta vitalidade é, ao mesmo tempo, aquilo que pode ser a sua
desgraça. Por ter crescido muito e sido difundida por muitos lugares acaba por
ser atacada pelos seus próprios falantes. O desconhecimento da própria língua e
cultura é um mal muito perigoso para qualquer nacionalidade ou idioma. A
cultura é o que move os povos, a cultura é o que faz nascer países independentes.
Uma língua dividida em si própria não pode subsistir.
A língua portuguesa é muito rica, mas é propriedade de todos
nós que a falamos. Dessa maneira nós devemos protege-la como coisa nossa que é.
Defende-la, poli-la, estimá-la, embeleza-la e, acima de tudo, usa-la
cuidadosamente. Usa-la como joia preciosa e única que é.
Este não é um manifesto contra o acordo ortográfico. O
português é um só, nas suas diferenças maiores ou menores mas é todo a mesma
língua. Tal como o inglês é um e é identificável, falado nos EUA, no Reino
Unido ou na Austrália. Os falantes de português têm o dever de proteger a
língua que herdaram. Têm o dever de querer saber falar bem. Têm o dever de
diversificar legitimamente o vocabulário e não introduzir estrangeirismos para
realidades já identificadas.
Não é apenas uma questão de língua. É uma questão de
cultura. É uma questão de império e poder. É uma questão de História. Devemos
honrar a língua como honramos a bandeira e o hino. Seria ótimo que um texto bem
articulado, declamado e rico como esta nossa língua nos possibilita nos
causasse tanta comoção quanto o Hino Nacional num qualquer evento desportivo.
Sem comentários:
Enviar um comentário