Hoje em dia há a ideia transversal e generalizada que as
pessoas devem procurar seguir o seu emprego de sonho. Trabalhar em algo de que
gostam. Até aqui tudo muito justo mas depois, como sempre, acontece o exagero.
Não me parece justo que se explorem os gostos das pessoas e se faça do trabalho
um passatempo. Não o é nem o será nunca! O trabalho deve ser pago justamente,
mesmo que aquela pessoa goste do trabalho que tem.
Os hobbies são,
naturalmente, atividades pelas quais se tem que pagar para usufruir. É justo,
precisamente porque são fruto do trabalho de alguém. Falo, por exemplo, de
cinema ou mesmo de uma atividade desportiva e competitiva onde muitos pais
investem parte do seu dinheiro para ter os filhos. É normal e justo que assim
seja.
Muito menos justo é que, em algumas áreas do trabalho, cada
vez mais, surjam propostas de trabalho voluntário ou ridiculamente pago. O que
é natural é que as empresas, que retiram lucro do trabalho dos funcionários
compensem esses mesmos funcionários com um ordenado justo. Os jovens terem que
investir o seu dinheiro (correção: o dinheiro dos pais) em deslocações e
refeições para poderem desempenhar um trabalho é uma perversidade da sociedade
atual.
Mas não os equivoquemos, se estas situações existem é porque
há quem aceite tomar parte delas. E digo claramente, quem aceita estas
condições não só se prejudica a si próprio, desvalorizado o seu próprio
trabalho e investimento pessoal, como também prejudica os seus pares e gerações
futuras, abrindo precedente a práticas que são, no mínimo, muito pouco éticas.
Não nego a evidência que, um pouco por todo o lado mas em
Portugal em particular, se atravessam tempos difíceis nos quais o dinheiro não
abunda e, por isso, há uma dificuldade real em pagar vencimentos superiores e,
provavelmente, mais de acordo com os preços do mercado. Entende-se isto mas já
não se entende que as entidades patronais, desrespeitando as pessoas, ofereçam
ordenados abaixo do necessário e do justo para sobreviver e/ou sobrecarreguem
os funcionários com muito mais trabalho do que aquele que eles deveriam fazer.
Mais uma vez, como já tinha dito antes, é bom trabalhar para
viver, para se sustentar e sustentar os seus. Já não é bom, é mau mesmo, que se
viva e se dedique todo o tempo apenas a trabalhar, não dando oportunidade à
família, ao tempo livre e a todo o mundo “lá fora”. Do diretor geral até ao
menor dos funcionários, todos devem procurar criar uma situação mais justa. As
empresas devem produzir riqueza, é verdade, mas já agora que tal essa riqueza
não ser apenas material mas ser também humana? Fica a ideia…
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